1 de fevereiro de 2011

Crônicas do Livro Azul

Mas O Sabão é Pra Quê?

                                                                                                    Para o Toby

"Eu tenho histórias para contar..." a frase que eu sempre quis ouvir das pessoas, que esperavam anciosas minha resposta "E eu tenho ouvidos e tempo para escutar" , no entanto nem tudo é tão simples assim, as pessoas nunca estão dispostas a te contar todas as histórias, mas quem sabe se experiências fragmentadas não são a chave para uma boa história? Vivência? Não, eu diria sorte:

Um desses dias aí, o tempo estava razoável, os passarinhos não cantavam e o amaciante tinha acabado, o sabão líquido também. Pode não parecer, mas amaciante é o que deixa a roupa cheirosinha, nós temos a aceitável mania de achar que sem perfume não há limpeza, um ponto a menos para a polishop, um a mais para veja perfumes da natureza. E o sabão líquido do banheiro, bom, aí já era mania minha mesmo, mas de verdade, água não limpa tudo...solvente universal uma ova: Piadinhas nerds à parte, fui no carinha da esquina seu Zé, pra comprar essas coisas - um pequeno cubículo com prateleiras de ambos os lados repletas de recipientes de plástico. Sempre imaginei como alguém teve a ideia de comercializar essas coisas. O Toby na frente da loja, sempre dormindo, me passa a ideia de vendinha do interior.

-O senhor tem amaciante e sabão líquido?
-Sim, e o sabão é pra quê?
- Oras, pra que deve servir um sabão?
-Estou dizendo que tem vários tipos.
-É pra por no banheiro...
-Então é sabonete líquido...
-O senhhor tem ou não?
-Erva Doce?
-O outro.
-Ok.

A venda era uma bagunça, no fundo, uma bicicleta quebrada, uma mesinha cheia de papéis, funis, latas de atum, um rádio, e uma gaiola de passarinho com dois amarelos, pulando pra lá e pra cá. Sobre a mesa/balcão, dois livros enormes, volumes I e II.

-Hum...Musashi...a história de um Samurai...
-Gosta de ler moça?
-Adoro ler, nunca ouvi falar deste aqui.
-Eu li muito sabe? Leio por baixo uns cem livros por ano. Este começa com uma batalha, o principal está em baixo dos mortos. Mas esse aqui um amigo me emprestou, vou escrever os nomes dos personagens porque são em japonês e não decorei  muito bem. Olha, se você quiser, eu posso te emprestar um livro muito bom, está entre os melhores que eu já li, se bem que aconteceu uma reunião esses dias com vários críticos literários, e eles escolheram os melhores 150 livros do mundo.
-E aí?
-Aí que eu não tinha lido nenhum dos que eles escolheram.
-Como chama o livro que quer me emprestar?
-Jesus nasceu na Índia, já leu?
-Não.
-Trata sobre os mitos do nascimento de Cristo, porque tem um túmulo na Índia com o nome Jesus, mas ninguém tem acesso à ele, é sobre os mitos dele estar na cruz e fazerem algo pra ele entrar em coma e morrer mais rápido, atos de misericórdia sabe?
-Só tinha ouvido a história de terem dado vinagre pra ele e terem achado que estavam maltratando-o quando na verdade era para que ele salivasse e pudesse beber algo, meu professor de química disse isso...
-Você parece ser curiosa, precisa estar preparada pra ler esse livro, ele é forte como aquele filme daquele diretor...
-Paixão de Cristo do Mel Gibson?
-Esse Mesmo.
-Já leu "O Diabo Riu"?
-Pior que já...
-Hum, o senhor tem muitas histórias pra contar né?
-Sim menina, vivendo muito, ou morando do lado de um bar, se ouve muitas histórias.
-Se o senhor gosta de contar estou pronta para ouvir; sempre achei que as maiores lições estavam dentro das pessoas e não em livros, e por mais estranho que seja queria contar todas as histórias...acha isso possível?
-Não sei minha jovem, não sei. Deu R$ 2,40.          

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