7 de janeiro de 2011

Crônicas da Biblioteca (Parte II)

O Cocuruto

                                                                                                Para a vó Olivia

-Vóoo!!!
-Oi filha!
-Vô tomar banho!
-Mas menina, vê se lava essa cabeça direito, lava bem o cocuruto!
Uma vez, quando eu ainda escrevia redações, minha professora me corrigiu e feio:
-Não é braba, é brava, quem fala braba é só a vozinha lá...
E eu fiquei pensando se a mesma vó que falava que estava braba comigo, me mandava lavar o cocuruto, era quase a mesma coisa, palavras que só se ouve de vó, no começo eu não achava nada, de verdade, nem ficava pensando porque chamava assim, só depois que pensei de fato, que nunca ninguém mais falou aquilo, era uma espécie de regionalismo caseiro, não sei, o caso é que, o cocuruto é a parte mais alta da cabeça, onde tem a risca do cabelo, na verdade, você pode se referir ao alto de uma montanha como o cocuruto de uma montanha, o engraçado foi que algumas pessoas do Rio, que minha vó contava, chamavam-no de cucuruco, e diziam sem vergonha para que suas filhas e filhos lavassem bem direitinho o cucuruco. Minha vó às vezes errava também falava isso, mas devia ser porque naquela época os discos da Elis Regina e da Ângela Maria ainda faziam sucesso, no vinil, e tinha uma música da Ângela Maria que chamava Cucurrucucu, daí, juntando uma coisa com a outra as avós felizes da vida cantavam o cocuruto da Ângela e mandavam a gente ir lavar o cucuruco.

I Do Belive...In Angels??

Façam Suas Apostas

                                                                                               Para o Jack

O caso foi que quando eu era pequena vivia naqueles prédios da vinte e três de maio andando pra lá e pra cá, esperando a hora do almoço ou jogando bey blaide (se alguém não sabe mais o que é isso, por favor, não me diga) Enfim, numa dessas vezes, conheci uma mulher que trabalhava literalmente(e clandestinamente) com jogo do bicho. Era uma lojinha pequena, com uma porta de metal que dava pra um balcão enorme que encobria bem os papeizinhos que ficavam expostos numa caixa.
Começamos a conversar e descobri que a mulher também, bordava, fazia ponto cruz. Numa segunda feira, lá estava eu, aprendendo a fazer ponto cruz (eu sempre gostava de aprender a fazer as coisas, por mais inúteis que pudessem parecer naquela hora).
Um dia, na lição de “como não deixar nó atrás da toalha”, ela me disse:
-Você sabe que meu gato sente a minha falta né?
-Como assim?
-Olha só..- E saiu da lojinha, fingindo que ia embora.
O gato ficou mesmo apavorado e saiu correndo atrás dela.
Primeira coisa estranha do dia.
Depois do costumeiro grito do senhor Paulo, perguntando o que tinha dado, e que aquela altura da coisa, eu já respondia pra ele:
-Gato na cabeça!! – E continuava a aula de bordado como se nada tivesse acontecido, mas naquele mesmo dia, fui tomar um chá na casa dela, que era em cima da loja (a essa altura já tem um monte pensando em pedofilia, é inevitável, eu sei...assista  As Crônicas de Nárnia e tente não pensar nisso) Mas naquela época de verdade, por sorte ou acaso, foi só um chá. E quando entrei no apartamento me deparei com milhões de estátuas de anjos, pequenas, grandes, enfim, muitas...Vendo minha surpresa ela disse:
-Sabe, eu acredito muito em anjos...
-Ah..
-É porque eu já vi um anjo, ele apareceu pra mim...
-Entendi...E você mora aqui com seu gato preto e seu anjos..
-Basicamente sim, estou pensando em me mudar, esse apartamento é muito pequeno, cheio de pêlos de gato...
-Mas o gato...
-Não, o Jack, coitado, não solta muitos pêlos, deve ser pêlo de cachorro...
-A senhora tem um cachorro então?
-Não.
-Bom, acho que está na hora do almoço, volto amanhã pra próxima aula...
Depois daquele dia, de verdade, não sei se foi pelo anjo, pelo gato, quem sabe se foi pelo aprendizado técnico em jogo do bicho, nunca mais vi a mulher. Voltei para o escritório do meu pai e resolvi que brincar de bay blade, só no corredor do escritório, mas eu lembro que antes de nunca mais voltar ao prédio eu dei tchau pra ela: Cachorro, na pata!  



Crônicas da Biblioteca (Parte I)

Então tá, até a próxima.
   
                                      
                                                                                                     Para o Lucas

Outro dia, (ok faz um ano), estava eu estudando na biblioteca (ok faz muito tempo mesmo)...Porque hoje em dia, estudar na biblioteca..há, senta lá neh..mas enfim, estava lá quando fui indagada por um amigo meu (eu estava lendo um livro espírita):
-Mas esse livro aí é espírita?
-É...( não só está escrito porque o autor é um idiota e pois pra enfeitar)...-Odeio quando sou irônica mentalmente, mas isso acontece sempre, não consigo evitar, Taniguchi que me perdoe).
-Ah, aquilo lá de macumba, espírito né?
-Não, não, calma lá, umbanda é uma coisa, kardecismo é outra. Na umbanda, que têm uma filosofia muito legal, apesar de não me agradar, as pessoas recebem as entidades.
-Entidades...
-É...as pessoas que já morreram mesmo, mas que incorporam nos outros e dizem algo para você, como uma doença que você tem, ou uma explicação que você queira, nestes lugares você tem que ser bem seguro do que quer, eu quando vou em um centro espírita quase morro.
-De susto?
-Rss. Não, de  má energias que às vezes rondam o lugar.
-E o espiritismo?
-Esse aí é um estudo só, do Evangelho deles, eles o lêem e tentam entender melhor essa questão, este mundo que eles falam, o segundo plano, não é distante de nós.
-Há, até parece, tem outro mundo que a gente não vê, como vou acreditar nisso aí?
-Bom, segundo os espíritas, toda vez que você sonha e entra em estado alfa, isto é quando você dorme mesmo tranqüilo, você sai do corpo e vai visitar seus afins no Plano Espiritual, e só fica ligado ao corpo por um fino cordão que te liga no corpo carnal, os sonhos seriam as poucas lembranças que você tem do que aconteceu “do lado de lá” entendeu? 
-É...naquelas...difícil de acreditar.
-Não é questão de acreditar ou não, é questão de necessidade, geralmente as pessoas têm medo de falar de que religião são, se esta não é a Católica, alguns são muito fracos para buscar outra alternativa, ou acham mais fácil simplesmente seguir o caminho de seus pais, no entanto a gente tem que buscar o que é melhor para nós, aquilo em que nos sentimos bem.
-É..isso é mesmo.             
-O legal é saber a diferença entre tudo isso, não é ruim saber, não precisa ser adepto só conhecer e respeitar, e deixa eu parar de falar porque toda vez que eu explico essas coisas porque tive a curiosidade de aprender, acham que eu sou a mais louca das religiosas, e só sei, só isso...
-Então tá, até a próxima...


Hoje em dia duas vacas brigam por um boi, naquela época...

Dois bois brigam por uma vaca

                                                                                                   Para o Tio Ginel

-Mas tio, como foi que o senhor ganhou aquele dinheiro na loteria mesmo?
-Ah...mais isso foi há um tempo atrais, nem mi alembro mais...o fato era que eu estudava numa escola, dessas de interior mesmo, chamava Alberto Paivini, nunca me esqueço...e o fato era que tinha lá uns cuzinheiros que sempre me davam um pãozinho de manhã, antes d’eu ir pra escola sabe?
-Assim, do nada?
-Como?
-Davam o pão do nada, sem motivo?
-Ah, não, filha, nesse mundo nada é de graça...eu levava pra eles uns joguinhos do bicho, isso era pra eles apostarem mesmo, aí eu que sabia tudo, sabia di cor todos os números..é...o treze era a borboleta...
-Ah..
-Nunca mi’esqueço disso...e o caso foi que um dia eu tava indo pra lá, e passei na frente de um pasto, sabe que naquela época era tudo assim, só mato, num se via nada nesse mar de terra, e daí que eu vi, dois bois, assim, um de frente pro otro com os chifre mesmo um empurrando pra lá e o outro pra cá, mais, num dei importância pr’aquilo e fui m’imbora...quando eu voltei di lá, o caso foi que os bois continuavam lá, brigando, um di frente pru otro...
-Ficaram lá o dia inteiro?
-Oi?
-O DIA TODO?? SE FICARAM LÁ O DIA TODO?
-Ah...sim, devem de ter ficado...só sei que matutei c’as minhas idéias...bom, mais dois bois brigando, só pode ser por causa d’uma vaca...
-É, tio o senhor tem razão, dois bois só brigam por uma vaca...
-Daí, minha mãe sempre me dava um dinherinho, era...tres mil contosdi reis na época, e eu falei: Hoje eu jogo no bicho! E vai dar vaca, na cabeça! E aí fui lá, joguei meu joguinho, e sabe, quando a gente joga a seco ganha mais, só sei que ganhei mesmo, sozinho...
-E era muito dinheiro?
-Nem mi alembro dereito, mais acho que era um valor que minha mãe usou pra ajudar nas conta de casa...