Capítulo 1
Os tilintares dos copos ecoavam pelo salão, assim como a valsa que tocava ao fundo, embalando diversos casais que bailavam lentamente conforme o som da melodia.
Os convidados estavam encantados com a festa que madame Ludoro havia oferecido ao filho recém casado.
-Que bela festa! - Comentou Beatrice a sua irmã mais nova.
-Certamente! Um linda festa e um lindo casal...Hum, vou pegar uns docinhos daqueles, já volto... - Rebeca deu um largo sorriso, demonstrando afeição.
Beatrice apreciava a vista de lindas rosas colocadas sobre o palco, onde uma orquestra tocava harmoniosamente diversas valsas.
Aquele era o evento do ano e estava feliz por sua amiga Carol que acabara de desposar-se com o privilegiado filho de madame Ludoro, um dos mais ricos do país.
Beatrice estava perdida em seus pensamentos e não notou quando um jovem se aproximou e pôs-se a falar:
-Beatrice Cameron! - Disse num ar impiedoso. - Creio que nestes anos tem se especializado muito em sua nobre posição de espiã do governo.
Beatrice olhou-o com raiva:
-Não tanto como Vossa Senhoria tem se especializado em assaltar bancos, senhor Truul, ou devo dizer, Chefão?- Beatrice fitou-o por um instante e deu de ombros.
-Veja bem senhorita Cameron! - Truul fez menção de virá-la para que ficassem frente a frente.
-Não ouse tocar em mim com suas mãos podres. - Beatrice olhou para o resto da festa que ainda não havia notado a discussão.
Beatrice falou num tom baixo:
-Acho que essa não é a hora nem o local para discussões. - Beatrice pegou a bolsa a fim de ir embora.
-Se está com medo, senhorita Cameron, não é preciso disfarçar. - Disse com cara de desdém.
Essa foi a gota d'água para Beatrice, que sem avisos prévios, fechou seu punho e deu um soco contra Truul, fazendo-o cair no chão.
A música parou e a atenção de todos voltou-se para Truul que limpava com um lenço o sangue que escorria pelo seu nariz:
-Imbecil!-Disse Truul levantando-se.
Beatrice suspirou envergonhada e deixou o salão batendo a porta com força. Antes de partir olhou de relance para Truul e pensou "Isso não sairá barato Truul, não mesmo!", teve tempo de balbuciar à madame Ludoro:
-Me perdoe, mas este cavalheiro tentou me atacar....Venha Rebeca, já basta por hoje! - Se dirigindo à irmã com uma cara de impaciência.
Beatrice sentou relaxada na poltrona da carruagem de aluguel enquanto olhava fixamente para Rebeca, que um pouco assustada, olhava a paisagem pela janela:
-Acho que lhe devo uma explicação, não?- Disse Beatrice ao observar a cara carrancuda da irmã.
-Se acha que não precisa dar esclarecimentos sobre esta noite...-Rebeca fitou Beatrice.-Irei entender perfeitamente.
Beatrice balançou a cabeça negativamente:
-Não. Acho que devo contar-lhe um pouco mais sobre a minha profissão, mas...-Beatrice olhou para o cocheiro.-Aqui não é o melhor lugar.
Rebeca concordou e olhou para fora, esperando ansiosamente chegar em casa.
-Estou ansiosa para saber os mistérios de Beatrice Cameron!
Ambas riram descontroladamente, mas foram interrompidas pelo cocheiro:
-River Street, aqui estamos, são vinte e três dólares.
Beatrice abriu o portão, e o que se via era uma linda mansão, pintada com um suave tom de amarelo. Antes da porta de entrada encontrava-se um lindo jardim, com orquídeas, hortênsias, primaveras e inúmeras espécies de plantas, mas o que mais se destacava era um canteiro de rosas vermelhas e brancas que contornavam toda a casa.
A porta da frente era talhada em mogno e feita sob encomenda para a mansão, por um marceneiro holandês famoso, que talhou com incrível perfeição inúmeras rosas destacadas através de um mosaico em cerâmica italiana, se difundindo com pedras escocesas, que eram completadas por cristal, que havia sido esculpido em formato de ondas pelo próprio marceneiro, dando delicadeza à porta.
No alto da mansão, encontravam-se as janelas, feitas do mesmo material da porta. Embaixo de cada janela destacava-se um canteiro esculpido em mármore, que abrigava, dentre muitas flores raras, uma linda flor roxa do deserto. Beatrice adorava ficar observando flores, por isso tinha uma coleção incrível em seu jardim.
A sala de Beatrice foi planejada inteiramente por ela e sua irmã. Os porta retratos davam sensibilidade a casa, emoldurando fotos de seus pais, já falecidos.
O piso verde-bebê combinava com as paredes chamuscadas num tom mais escuro de verde, essas que se enfeitavam com quadros de diversos artistas, que presentearam Beatrice em seu aniversário.
Beatrice pendurou sua bolsa e largou-se no sofá, passando a mão sobre sua face, tentando amenizar a enxaqueca. Sua irmã sentou ao seu lado e olhou-a com pena:
-Mandei que Gina preparasse um chá para nós, afinal, foi um dia cansativo o que passamos. -Respirando fundo, olhou para o lado, tentando disfarçar a curiosidade.
Beatrice fitou-a por um instante.-Eu realmente trabalho em algo secreto.-Beatrice estava cochichando e Rebeca teve que chegar mais perto para ouví-la:
-Eu trabalho para o Serviço Secreto Americano, a Float.
Rebeca deu um berro:
-Você o que?!
Beatrice pôs o dedo indicador sobre os lábio da irmã. -Eu trabalho para o governo, a Float, um orgão do serviço secreto, mas secretamente, entende?
Rebeca olhou-a por alguns segundos com os olhos arregalados. - Sabe que pode morrer fazendo isso, não é?- Rebeca fez uma expressão furiosa.
-Acho que já sei me cuidar muito bem sozinha Rebeca, ou acha que ainda sou aquela menina mirrada que era?
Rebeca elevou a voz:
-Sabe o que a mamãe acharia se soubesse disso?
Beatrice pôs-se de pé e olhou furiosa para a irmã. -Mamãe está morta e temos que cuidar de nossas próprias vidas agora, ninguém mais vai nos proteger, é cada um por si!
Uma lágrima escorreu dos olhos de Rebeca que silenciosamente olhou a irmã.
Beatrice sentou-se novamente, abraçou a irmã e ambas choraram abraçadas.
Beatrice sussurrou no ouvido da irmã:
-Eu sempre estarei aqui, aconteça o que acontecer, você me apóia?
Rebeca limpou as lágrimas do rosto, e com um mero sorriso, segurou as mãos da irmã entre as suas:
-Desculpe, Be, acho que me descontrolei....É claro que eu te apóio sempre vou estar aqui também, e prometo que nunca nos separaremos.
E então Gina apareceu, trazendo uma bandeja com chá de camomila e algumas bolachas amanteigadas:
-Aconteceu algo, senhorita Cameron?
Beatrice respondeu com um sorriso:
-Não Gina, está tudo bem...são apenas...bobagens da vida...
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